O QUE É DEPRESSÃO? ENTENDA OS SINTOMAS, O QUE ACONTECE NO CÉREBRO E COMO A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) AJUDA NO TRATAMENTO

Neste artigo você vai encontrar:

     

      • O que é depressão?

      • O que acontece no cérebro durante a depressão?

      • Quais são os tipos de depressão?

      • O que causa a depressão?

      • Como é feito o tratamento para depressão?

      • A depressão é genética?

      • Quais são os sintomas da depressão?

      • Como saber se estou com depressão?

      • A depressão tem cura?

      • O que pode acontecer se a depressão não for tratada?

      • FAQ – Dúvidas frequentes.

    Apesar de afetar milhões de pessoas e poder ter consequências tão graves quanto muitas doenças físicas, a depressão ainda é frequentemente banalizada. Diferentemente de muitas doenças, ela não pode ser confirmada por um exame laboratorial ou de imagem, o que faz com que muitas pessoas questionem sua existência e a considerem “frescura”, “fraqueza”, “preguiça”, “falta de força de vontade”, “falta de caráter”, “fingimento” ou até mesmo “falta de fé”.

    Enquanto um diagnóstico de câncer, por exemplo, geralmente desperta acolhimento e compreensão, quem sofre de depressão muitas vezes escuta frases como: “é só pensar positivo”, “você tem de tudo, não tem motivos para estar assim”, “você precisa reagir”, “é só levantar da cama e fazer”, “vai fazer uma caminhada”, “você tem tudo para ser feliz”, “tem gente em situação muito pior que a sua” ou “é só pedir para Deus que isso passa”. No entanto, embora as duas doenças tenham características muito diferentes, ambas podem levar à morte quando não são tratadas. Esse estigma faz com que muitas pessoas sintam vergonha de pedir ajuda, se culpem pelo próprio sofrimento e adiem, ou até mesmo deixem de buscar, o tratamento. A depressão não é uma escolha nem um defeito de caráter: é uma doença real, com bases biológicas, psicológicas e sociais, influenciada também por fatores genéticos, e merece o mesmo respeito, seriedade e cuidado dedicados a qualquer outra condição de saúde.

    O QUE É DEPRESSÃO?

    A depressão é uma doença mental comum, séria e que pode afetar profundamente a forma como a pessoa pensa, sente e vive. Diferente da tristeza passageira, ela pode durar semanas, meses ou até anos e, quando não tratada, tende a se tornar recorrente. Além de comprometer os relacionamentos, o trabalho e a qualidade de vida, a depressão está entre as doenças mais associadas ao risco de suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 5,8% da população brasileira vive com depressão, tornando o Brasil um dos países com maior prevalência da doença na América Latina.

    O impacto da depressão também pode ser observado no ambiente de trabalho. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que a depressão é uma das principais causas de afastamento entre todas as doenças mentais, perdendo apenas para os transtornos de ansiedade. Isso reforça a importância de reconhecer os sinais da depressão e buscar ajuda profissional o quanto antes, pois o tratamento adequado aumenta significativamente as chances de recuperação. https://gov.br/saude/depressao 

    Entre todas as doenças que causam incapacidade (como dor lombar, artrite, asma, diabetes, AVC e câncer), os transtornos depressivos estão entre as principais causas de tempo vivido com incapacidade no mundo e são a principal causa entre os transtornos mentais. A depressão pode comprometer a capacidade de trabalhar, estudar, cuidar de si mesmo e manter relacionamentos por longos períodos.
    Global Burden of Disease Study 2021 – The Lancet: https://www.thelancet.com/gbd

    O QUE ACONTECE NO CÉREBRO DURANTE A DEPRESSÃO?

    A neurociência tem mapeado várias alterações associadas à depressão. Algumas das principais:

       

        1. Hiperatividade do eixo HPA – leva a níveis elevados de cortisol, o “hormônio do estresse”, de forma crônica — o que, por sua vez, tem efeitos tóxicos sobre estruturas cerebrais sensíveis, como o hipocampo.

        1. Redução de volume e atividade no hipocampo em pessoas com depressão recorrente ou de longa duração –estrutura envolvida na memória e na regulação emocional. Isso está associado à neurotoxicidade do cortisol elevado e à redução da formação de novos neurônios.

        1. Hipoatividade no córtex pré-frontal – responsável por funções executivas, regulação emocional e tomada de decisão — o que ajuda a explicar dificuldades de concentração, indecisão e a sensação de “lentidão mental”.

        1. Hiperatividade da amígdala – funciona como um “alarme emocional” do cérebro. Na depressão, esse alarme pode ficar mais sensível, fazendo com que acontecimentos negativos tenham um impacto muito maior, enquanto experiências positivas passam despercebidas ou parecem ter pouca importância.

        1. Inflamação crônica de baixo grau – O cortisol elevado de forma persistente ativa uma resposta inflamatória leve e contínua no corpo, que retroalimenta o próprio eixo do estresse.

        1. O eixo intestino-cérebro. Cerca de 90% da serotonina do organismo é produzida no intestino. Embora essa serotonina não atravesse a barreira hematoencefálica, alterações na microbiota intestinal influenciam a comunicação entre intestino e cérebro por diferentes mecanismos, podendo contribuir para sintomas depressivos.

        1. Desequilíbrio de neurotransmissores — serotonina, noradrenalina e dopamina — responsáveis por regular humor, motivação, prazer, energia e resposta ao estresse. A serotonina está ligada à regulação do humor, do sono e do apetite; a noradrenalina, ao estado de alerta, à energia e à concentração; e a dopamina, ao sistema de recompensa, à motivação e ao prazer.

      QUAIS SÃO OS TIPOS DE DEPRESSÃO?

      A versão mais atualizada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM 5 – TR, classifica os transtornos depressivos em:

         

          • Transtorno Depressivo Maior

          • Transtorno Depressivo Persistente (distimia)

          • Transtorno Disfórico Pré-Menstrual

          • Transtorno Disruptivo da Desregulação do Humor

          • Transtorno Depressivo Induzido por Substância/Medicamento

          • Transtorno Depressivo Devido a Outra Condição Médica

          • Outro Transtorno Depressivo Especificado e Não Especificado

        O QUE CAUSA DEPRESSÃO?

        Geralmente a depressão surge da combinação de fatores como:

           

            1. Genética: Histórico familiar que aumenta a vulnerabilidade biológica ao transtorno.

            1. Ambiente: Contexto social desfavorável, como violência, perdas ou isolamento.

            1. Trauma: Abusos ou eventos marcantes na infância que alteram o desenvolvimento cerebral.

            1. Estresse: Sobrecarga contínua na rotina que esgota os mecanismos de defesa da mente.

            1. Doenças: Condições físicas crônicas ou dores constantes que impactam a saúde mental.

            1. Alterações neuroquímicas: Desequilíbrio nos neurotransmissores que regulam o humor e o bem-estar.

          COMO É FEITO O TRATAMENTO DA DEPRESSÃO?

          A Terapia Cognitivo-Comportamental é considerada uma das modalidades mais eficazes para o tratamento da depressão.” — PubMed (https://shre.ink/jrCBT2). O tratamento deve ser individualizado e baseado na gravidade dos sintomas, nas necessidades e nas características de cada pessoa. As principais estratégias com eficácia comprovada incluem:

             

              • psicoterapia

              • medicamentos

              • atividade física

              • higiene do sono

              • alimentação

              • suporte social

            A DEPRESSÃO É GENÉTICA?

            A depressão resulta de uma interação complexa entre fatores sociais, psicológicos e biológicos.” — Organização Mundial da Saúde (OMS).
            Link: OMS – Depression Overview  . É um transtorno multifatorial que envolve alterações neurobiológicas, genéticas, inflamatórias e ambientais.” — Nature Signal Transduction and Targeted Therapy (https://shre.ink/jrNature)A herdabilidade dos transtornos depressivos é estimada em aproximadamente 30 a 50% (https://shre.ink/jrg8). 

            Cada pessoa tem uma vulnerabilidade de base genética (temperamento, histórico de trauma, funcionamento biológico) que determina o quanto de estresse é necessário para desencadear um episódio depressivo. Duas pessoas podem passar pelo mesmo evento de vida — um luto, por exemplo — e uma desenvolve depressão enquanto a outra não. A diferença não está no evento em si, mas na vulnerabilidade prévia de cada cérebro. Por isso, nem sempre existe um motivo óbvio para estar deprimido.

            QUAIS SÃO OS SINTOMAS DA DEPRESSÃO?

            “A depressão pode causar sintomas graves que afetam como a pessoa sente, pensa e realiza as atividades do dia a dia.” — National Institute of Mental Health (NIMH).
            Link: NIMH – Depression

            Sinais de alerta, baseados nos critérios do DSM-5 TR: 

            Vale buscar avaliação profissional se, na maior parte do dia, quase todos os dias, por 2 semanas ou mais, você notar:

               

                • Humor deprimido persistente e/ou perda de interesse/prazer em coisas que normalmente gostava — pelo menos um dos dois precisa estar presente.

              Combinado com vários destes:

                 

                  • Alteração significativa de apetite ou peso;

                  • Insônia ou sono excessivo;

                  • Fadiga ou perda de energia constante;

                  • Dificuldade de concentração ou indecisão que atrapalha o dia a dia;

                  • Sentimento de culpa ou inutilidade desproporcional;

                  • Lentidão ou agitação perceptível por outras pessoas;

                  • Pensamentos de morte, mesmo que passageiros.

                COMO SABER SE ESTOU COM DEPRESSÃO?

                Muitas pessoas acreditam que a depressão é apenas tristeza, mas ela pode se manifestar de diversas formas. Se você percebe alterações persistentes no humor, na energia, no sono, na motivação ou na capacidade de realizar atividades do dia a dia por duas semanas ou mais, é importante procurar avaliação profissional. Apenas profissional da saúde pode realizar uma avaliação adequada e indicar o tratamento mais apropriado.

                A DEPRESSÃO TEM CURA?

                A depressão tem tratamento e, em muitos casos, é possível alcançar a remissão completa dos sintomas e recuperar a qualidade de vida. Algumas pessoas terão apenas um episódio ao longo da vida, enquanto outras podem apresentar recaídas. Por isso, quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de melhora. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens com maior respaldo científico para o tratamento da depressão e pode ser utilizada isoladamente ou em conjunto com medicação e prática regular de exercícios físicos, de acordo com a gravidade do quadro e a avaliação do profissional de saúde.

                O QUE PODE ACONTECER SE A DEPRESSÃO NÃO FOR TRATADA?

                A depressão não tratada raramente permanece estável — na maioria dos casos, ela cronifica, se intensifica ou entra em ciclos de recaída cada vez mais frequentes, fenômeno conhecido como efeito kindling.

                Os principais riscos incluem:

                   

                    • Cronificação e piora progressiva, com maior dificuldade de resposta ao tratamento quanto mais tempo o quadro permanece sem manejo.

                    • Prejuízo funcional cumulativo, queda de desempenho no trabalho, conflitos relacionais e isolamento tendem a se retroalimentar ao longo do tempo.

                    • Impacto na saúde física, incluindo maior risco cardiovascular, agravamento de doenças crônicas preexistentes e enfraquecimento do sistema imunológico — efeitos ligados à inflamação crônica discutida acima.

                    • Maior vulnerabilidade a comorbidades, como transtornos de ansiedade e uso problemático de álcool, substâncias ou comportamentos aditivos (como BETS, jogos online, Tigrinho, etc.).

                    • Alterações estruturais cerebrais cumulativas, com redução progressiva do volume hipocampal em episódios recorrentes não tratados.

                    • Risco de ideação e comportamento suicida — o desfecho mais grave, e um dos principais motivos pelos quais buscar tratamento precocemente é essencial.

                  FAQ – Dúvidas Frequentes

                  A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) funciona para depressão?

                  Sim. A TCC é uma das psicoterapias mais estudadas e com maior respaldo científico para o tratamento da depressão. Ela ajuda a identificar padrões de pensamentos negativos, modificar comportamentos que mantêm o sofrimento e desenvolver estratégias para prevenir recaídas.

                  Quanto tempo dura o tratamento da depressão?

                  Não existe um tempo único. Algumas pessoas apresentam melhora significativa em poucos meses, enquanto outras necessitam de um acompanhamento mais prolongado. O tempo de tratamento depende da gravidade do quadro, da presença de episódios anteriores e da resposta individual.

                  A depressão pode voltar?

                  Sim. A depressão pode apresentar recaídas, principalmente quando não é tratada adequadamente ou quando o tratamento é interrompido precocemente. Por isso, seguir as orientações do psicólogo e do psiquiatra é fundamental.

                  A depressão pode causar sintomas físicos?

                  Sim. Além dos sintomas emocionais, a depressão pode provocar dores no corpo, fadiga intensa, alterações gastrointestinais, dores de cabeça, mudanças no apetite e no sono, redução da libido e sensação constante de falta de energia.

                  Exercício físico ajuda no tratamento da depressão?

                  Sim. A prática regular de atividade física é considerada um importante complemento ao tratamento. Ela favorece a liberação de substâncias relacionadas ao bem-estar, melhora o sono, reduz o estresse e potencializa os efeitos da psicoterapia e, quando indicado, da medicação.

                  PRECISA DE AJUDA PARA TRATAR A DEPRESSÃO?

                  Sou Laiane, psicóloga clínica, CRP RJ 74716, com formação em Terapia Cognitivo Comportamental – TCC, atendo adultos com depressão, ansiedade e outras psicopatologias. O primeiro encontro é gratuito https://laianepedroso.com/#cafecomterapia , agende clicando aqui: https://www.doctoralia.com.br/laiane-pedroso/psicologo/rio-de-janeiro.

                  Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação e acompanhamento com profissional de saúde mental. Se você ou alguém que você conhece está enfrentando sintomas de depressão, buscar ajuda especializada é o primeiro passo para o tratamento adequado.

                  Se você está em sofrimento intenso ou com pensamentos de morte, ligue para o CVV: 188 (gratuito, sigiloso, 24h) ou acesse https://cvv.org.br

                  REFERÊNCIAS:

                     

                      • Song, J. et al. (2024). Major depressive disorder: hypothesis, mechanism, prevention and treatment. Signal Transduction and Targeted Therapy, Nature.

                      • Neuroinflammation—A Crucial Factor in the Pathophysiology of Depression—A Comprehensive Review (2025). International Journal of Molecular Sciences, MDPI.

                      • Chronic Stress-Associated Depressive Disorders: The Impact of HPA Axis Dysregulation and Neuroinflammation on the Hippocampus (2025). International Journal of Molecular Sciences, MDPI.

                      • Re-Examination of Inflammation in Major Depressive Disorder: Bridging Systemic and Neuroinflammatory Insights (2025). Biology, MDPI.

                      • Chronic stress, neuroinflammation, and depression: an overview of pathophysiological mechanisms and emerging anti-inflammatories (2023). Frontiers in Psychiatry.

                      • The HPA axis and kynurenine pathway: exploring the role of stress and neuroinflammation in treatment-resistant depression (2025). Pharmacological Reports, Springer.

                      • Bertollo, A. G., Santos, C. F., Bagatini, M. D., & Ignácio, Z. M. (2025). Hypothalamus-pituitary-adrenal and gut-brain axes in biological interaction pathway of the depression. Frontiers in Neuroscience.

                      • Post, R. M. Modelo de sensibilização (kindling) em transtornos de humor.

                      • American Psychiatric Association. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.